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jeudi 30 juin 2011

1917

Outra seleção de versos de Fernando Pessoa, estes do ano de 1917:


JÁ SINTO EM SONHO sobre eu ‘star morto
A erva nascer.
E como a noiva que vê do porto
A nau crescer

Que traz seu noivo e chora por tê-lo,
Porque, chegado,
Morre a feliz ‘sperança de vê-lo
E a ‘sperança é bela.

Assim... Não sei... Sobre eu ‘star morto
A erva...

Mas que tem isso com eu ‘star morto
Sinto-o e não sei...

Morre a ‘sperança que tem de vê-lo,
E tê-lo é perder querê-lo ter ao lado.



NA SOMBRA E NO FRIO da noite os meus sonhos jazem.
Um frio maior cresce do abismo, e decresce.
Toca-me o coração de dentro a Mão que conhece.
As estrelas sobem. Por cima de mim se desfazem.
Ah, de que serve o sonho? O que acontece
Não é o que nós queremos, mas o que os Deuses fazem.

O silêncio oscila. Na inércia da hora paira
Um murmúrio ansioso da sombra.

A minha vontade é um acto alheio, um gesto visível
A olhos para quem o mundo visível é o que nós não vemos.

De que braço é todo o meu ser um só gesto abstracto?
Que movimentos no ar são as minhas acções queridas?
Falta ao meu senso de mim um ajuste e um tacto.

Jaz no chão com meus sonhos a cinza de todas as vidas.



ERAM TRÊS FILHAS de rei.
A hora é de prata.
No palácio do Norte
Tinham a mesma sorte.

Uma era loura e leve.
Outra era loura e alta.
Outra era como um rio
Que corre ao longe macio.

Eram três filhas de rei.
Nenhum príncipe veio.
Eram três velhas perdidas
A sonhar as suas vidas.

Deus as guarde na morte.
Eram três filhas de rei.
Deus as guarde na morte
No palácio no Norte.

Eram três filhas de rei.
Quem elas eram não sei.



UM PIANO na minha rua...
Crianças a brincar...
O sol de domingo e a sua
Alegria a doirar...

A mágoa que me convida
A amar todo o indefinido...
Eu tive pouco na vida
Mas me dói tê-lo perdido.



LÁBIOS QUE POUSAM e que entreabertos
Escutam palavras do coração...
Assim dentro dos olhos, mão
Consciente sobre o sofá, madeixa caída
Ligeiramente

P’ra quê, se o sonho é melhor que a vida?



O REINO LONGÍNQUO dos ÍDOLOS mortos
Tem cousas e seres com negra expressão.
Nenhum viajante desceu aos seus portos.
Ninguém o deixou após tê-lo em visão.

Todas as cousas ali são conscientes.
As arestas olham com um olhar seu.
As pedras e as plantas e as águas são entes
Em quem como em nós Deus bem não morreu.

Se às vezes, nas horas mais frias da vida
Eu ergo a minha alma até onde há céu,
Renasce a memória, que eu tinha esquecida,
Do Reino sinistro que o Tempo esqueceu.



NÃO TENHO NADA p’ra te dizer
Salvo que a vida já não me quer.

Não tenho nada para te ouvir
Para que ouvir? Se não sei sentir...

Sofro nos sonhos, sofro na vida.
Não tenho norma, nem direcção...

Levo o cadáver da fé perdida
Para o jazigo da ilusão.



SÚBITA MÃO de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão noturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.



PASSAM AS NUVENS, murmura o vento
Passam as nuvens, vão devagar.
Demoro em mim o meu pensamento
E só encontro não encontrar...

Passam as nuvens, os ventos vão,
Levam as nuvens a um vago além,
Mas nunca a dor de meu coração
Ou a ânsia vaga de que provém.

Passam as nuvens, não têm destino
Salvo passar, não ficar aqui...
Assim meu ser tivesse um divino
Nenhum-destino, não ser de si.

Passam as nuvens, eu fico e tenho
Por meu destino pior, ficar...
Sem saber donde, nuvem, provenho
Ou qual o vento que me há-de levar...



TEUS BRAÇOS DORMEM no teu colo,
Quebras o busto para a frente.
Teu perfil é de desconsolo,
Mas a minha alma é que é doente.

Talvez tu penses, fugitiva,
Nalguma ’sp’rança que te faz
Não triste, mas só pensativa,
Porque o sonho não satisfaz.

Eu, porém, para quem tudo é
A minha sombra sobre o mundo,
Ponho teu corpo, como o vê
Meu olhar, no meu ser profundo,

E interpreto para ânsia e erro
A tua simples posição,
Só para que haja mais desterro
No meu perdido coração,

Só para que entre o mole ondear
Do cortejo dos meus afectos,
Os sonhos sejam incompletos
E o cortejo sempre a acabar.

Não importa. O teu vulto cisma,
Ou, se não cisma, cismo-o eu.
Deixa que a hora passe, e abisma
Meu sonho nesse gesto teu.



QUANDO EU AMEI não fui amado,
Nem fui amado sem amar.
Todo o meu ser ficou parado
A meditar.



LEVAI-ME PARA LONGE em sonho,
Ó som do mar,
Um vago mal-estar risonho
Me venha alhear
Da consciência do momento
Que, definida,
Paira em meu vago pensamento...
O sonho é a vida...



NOMEN ET PRAETEREA NIHIL
Mina-me a alma com suavidade,
Com uma incerta angústia meu ser come
Uma vaga, indecisa saudade
Só de um nome.

Onde o ouvi? Qual era? Não o sei.
O seu efeito em mim apenas vive
E a ideia de que ouvindo-o é que criei
A dor que em mim revive.

Rainha o teve? ou que princesa morta?
Ou fada incerta o usou para fadar?
Quem foi agora não me importa.
Sem ele já não posso mais sonhar.

Ao pé dele – não sei se em quem o tinha,
Se nele só, ouvindo-o e nada mais –
Sinto a felicidade viver minha.
Sílabas irreais,

Murmúrio vago, arfar de incerta sugestão,
Tirai da flor do ramo, só para ouvir
O segredo, o mistério ou a canção,
Que faz a dor sorrir,

Indefinida incompreensão falada
Da vida por passar, como a que foi!...
Nome sem fim! Não me sejas nada!
Sem ti a vida dói...

Sem a esperança oculta no teu vago
E amortecido brilho sou apenas,
O cansaço de mim, certo e aziago,
Morta flor nada sendo à flor do lago.



PENUGEM
Uma leve (veludo me envolve), vaga,
Vazia brisa
Como uma impressão imprecisa se propaga
Pela minh’alma imprecisa.

Pendem, oscilando, do caule da Hora – a rosa
Rara raiou –
As flores que outrora perfumaram a luminosa
Vida que (já) passou.

E tudo porque uma brisa, como quem brinca, brinda
Ao meu hesitar
O insulto inútil da sua veludínea e linda
Voz de variar;

Porque sob o azul do sul um vago, ou um afago
Que sugere, ou contém,
A ideia de vida feliz ou de morte tranquila, vago
Afago vem.

E eu dispo de mim as intenções e as memórias
Na abstracta fragrância,
E a Hora é apenas o terem-me contado ’stórias
Na minha infância.



MEU PENSAMENTO, dito, já não é
Meu pensamento.
Flor morta, bóia no meu sonho, até
Que a leve o vento.

Que a desvie a corrente, a externa sorte.
Se falo, sinto
Que a palavras esculpo a minha morte,
Que com toda a alma minto.

Assim, quanto mais digo, mais me engano,
Mais faço eu
Um novo ser postiço, que engalano
De ser o meu.

Sim, já pensar é fala que reside.
Já falo assim.
Meu próprio diálogo interior divide
Meu ser de mim.

Mas é quando dou forma e voz do ’spaço
Ao que medito
Que abro entre mim e mim, quebrando um laço,
Um abismo infinito.

Ah, quem me dera a perfeita concordância
De mim comigo,
O silêncio interior sem a distância
Entre mim e o que eu digo!



SOSSEGO ENFIM. Meu coração deserto
Nada espera da inútil caravana.
Pouco a pouco meu ’spírito se irmana
Na própria perda do saber incerto.

É sempre além de mim o indescoberto
Porto ao luar com que se o sonho engana.
De imperceptível, este sonho plana
Para a vida em completo desacerto.

Estagno a lagos de algas por achar,
Sinto vogar o barco das amadas.
A noite despe não haver o luar

E como um filtro de horas encantadas
Tremem os rios, gelam as estradas
No absurdo vácuo de eu não ter que amar.



INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado –
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem to disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque o não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca –
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.



FICÇÕES DO INTERLÚDIO

I
PLENILÚNIO
As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar –

A expirar mas nunca expira –
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir


II
SAUDADE DADA
Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De ouvem vir a rir a vindas
Fitam a frio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.


III
PIERROT BÊBADO
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Só a lua cheia
Branqueia e clareia
As ruas da feira
Na noite entreaberta.

Só a lua alva
Branqueia e clareia
A paisagem calva
De abandono e alva
Alegria alheia.

Bêbada branqueia
Como pela areia
Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Na noite já cheia
De sombra entreaberta.

A lua baqueia
Nas ruas da feira
Deserta e incerta...


IV
MINUETE INVISÍVEL
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...

Vêm, aéreas, dançar
Como perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...

Passam e agitam a brisa...
Pálida, à pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...

Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas
No jardim lívido e frio...

Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...


V
HIEMAL
Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...

E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas, e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...

E são fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...

Toadas afastadas, irreais, de baladas...


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mercredi 22 juin 2011

1916

Voilà mais uma seleção de versos do poeta Fernando Pessoa. Estes são de 1916...



NOS BANCOS dos jardins
De outrora, nos passeios
Por alamedas, nos enfins
Levianos de vãos enleios...
Que leve arfar de suspeitados seios
Um gesto fazendo soar cetins...



NÃO SEI, AMA, onde era;
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era todo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer cousa a fazer
De aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...
(Filha, sonhar é vão...)



FECHO OS OLHOS, medito
E, se invoco, revivo
Um momento - meu ser é infinito
No inteiro eu entre mim e o que fui
Depois estagno, e o meu ser morto e esquivo
Rio fundo por mim flui.


TANGE A TUA FLAUTA, pastor. Esta tarde
Pertence à dor, à tua dor que em mim arde.

Tange por isso pastor, a tua flauta a tremer.
Tange, tange, para que eu me não sinta sofrer.

Leve, um vento antigo passa entre ti e mim.
Leve, o vento regressa, e a música está no fim.

Mas nunca haverá fim ou música em meu tormento.
Tange outra vez a flauta, pastor. Deixa o vento

Estar entre ti e mim outra vez, como a sombra triste
Que está na tua alma, e na minha alma, e não existe.



NADA NOS FAÇA DOR,
Nada nos canse de olhar,
Vivamos no torpor
De observar e ignorar.

Com o vago pensamento
De ir vindo na corrente...
Vivamos o momento
Irresponsavelmente.



SERÁ PARA ALÉM do mar...
Desoladoramente...
Não haverá chorar...
Nada entre
Nós e amar.

Tudo como o sonho –
A sombra, o lago...
Sobre o ar em que ponho
O meu afago.

Ninguém... Nem eu
Talvez ali...
Não sei como vi...
Choro... Morreu
Quem ma deu...

E este meu percalço
Meu ser descalço
Não é verdade
Nem é falso

Nem sonhado, ou real...
Intermédio...
O vago igual
À beira do tédio
E da vida ser um mal.



ALGA
Passa na noite calma
O silêncio da brisa...
Acontece-me á alma
Qualquer cousa imprecisa...

Uma porta entreaberta...
Um sorriso em descrença...
A ânsia que não acerta
Com aquilo em que pensa.

Sombra, dúvida, elevo-a
Até quem me suponho,
E a sua voz de névoa
Roça pelo meu sonho...


HÁ UMA VAGA mágoa
No meu coração.
Como que um som de água
Suma solidão...
Um som tênue de água...

Memoro o que, morto,
Ainda vive em mim
Memoro-o, absorto
Num sonho sem fim,
Estéril e absorto.

Será que me basta
Esta vida em vão?
Que nada se afasta
Da sua solidão...
Nem de mim me afasta?

Não sei. Sofro o acaso
Da mágoa em meu ser...
Cismo, e há em mim o ocaso
Do que quis viver –
Sempre só o ocaso.



BÓIAM NO ‘SPAÇO
Sempre sem rastros,
Mesmo ideais,
Pálidos astros,
Sóis espectrais.

Sombras dos pontos
Certos e incertos
Onde luz são,
‘Spaços desertos
Da luz que dão.

Meu pensamento
Longe os divisa
Conhece-os sem
Visão precisa...
Olhos do Além.

Meu pensamento
Sem qu’rer os usa
Para os temer...
Astros na abstrusa
Sombra a tremer...

Horas do ‘spaço,
Harpas do acaso
No sonho meu...
Brilham no raso,
Marmóreo céu

Qual é o sentido
Que lhes pertence,
No magno mar
De sonho ausente
Ao lhes mirar?



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jeudi 16 juin 2011

1915

Do grande autor português, Fernando Pessoa, outra seleção de poemas (alguns inéditos!)... Estes, de 1915:



DEUS SABE melhor do que eu
Quem eu sou
Por isso a sorte que me deu
É aquela em que melhor estou.

Deus sabe quem eu sou e alinha
Minhas acções
Duma forma que não é a minha,
Mas que tem íntimas razões.


EU SÓ TENHO o que não quero
E a vida é pouco p’ra mim...
Não sei por que coisa espero
Nem se a quererei enfim...

Conto as horas como moedas
Que nunca penso em gastar...
E como quem rasga sedas
Não uso o que quero usar.

Quem me dera poder ter
Alguma cousa na vida
Que chorar ou que querer...
Ó pobre à porta da ermida...


NÃO ME PERGUNTES por que estou triste...
Fico mais triste por não poder
Dizer-te porque esta dor existe.
E nunca cessa de me vencer.

Ah, ausente lugar da minha mágoa,
Numa ilha cheia de sol e flores
Deve haver ritmos de brisas e água
Batendo às almas por paz e amores.

Deve haver dias ali felizes,
Horas que passam sem se falar...
Ó Morte, dize-me em que países
Guardas a vida de além do Mar?...

Dize baixinho, no meu ouvido,
A que distância deste meu ser
Puseste aquilo que eu hei perdido
Antes de a vida me conhecer...

E depois leva-me até essa ilha,
Leva-me longe, perdido em ir...
Ah, o rasto da água que ao luar brilha!
Ah, a viagem para Existir...!


DO ALTO DA CIDADE
Olho e em baixo, profusa,
A multiplicidade
Tão nítida e confusa
Das casas da cidade...

O céu é todo azul
E a cidade é vazia
Há um calor que me esfria
No seu gesto de sul
Sob o céu todo azul...

Sim, dessa mole mista
De casas, tectos, espaços
Sai um hálito a cansaços
Que sem qu’rer me contrista
Numa oca angústia mista...

Porque é que me entristece
Ver ao sol a cidade
Que parece se invade
De vida e ao sol se aquece
Até que se entristece?

Nunca sei porque sinto...
Mas uma angústia enorme
Rompe em mim um recinto...
Acorda o que em mim dorme
E é a dor que sempre sinto...

A mágoa inconsolada
De não ter não sei quê...
O que é que a cidade é
Que sem ser p’ra mim nada
Faz-me a alma inconsolada?

O que há neste alvo vulto
Que me lembra a tristeza?
É uma vaga beleza
Que busca em mim um culto
Para a alma do seu vulto?

Não sei... Ah, triste, triste...
Tão triste ao vê-la assim
Alegre... Ruas, jardim...
As casas... Isto existe...
Com que angústia estou triste!


TROUXERAM-NA MORTA,
Tirada da água...
Trouxeram-na morta...
Tocaram os sinos
Por toda la magoa
De anciões e meninos...

Trouxeram-na quatro
Seus olhos sem par
Não tinham fulgor
Trouxeram-na quatro...
Seu noivo, o alvar,
Seu irmão maior
E um que a viu achar.

No rio a encontraram,
No rio a entreviram...
No rio a encontraram
De brancuras corando...
Seu nome era brando...
Do rio a tiraram...

Sua boca era muda...
Algas seus cabelos
Sua boca era muda...
Seus olhos – só vê-los
Sonhava revê-los
Na antiga postura
Em que eram tão belos...
No rio a encontraram
À tarde, à ventura...

A quatro a trouxeram
P’ra casa dos pais...
A quatro a trouxeram
Chorando, chorando
P’ra casa dos pais...
Seu nome era brando
Como a dor sem ais...

Trouxeram-na morta...
Tão branca, sem par
Sua face absorta,
Só em se deixar
Ficar assim morta...
Que importa? Que importa?
Deus há-de explicar.


EM DIAS LEVES, sonolentos,
Por violentos e esbatidos
(Carícias as antigas) ventos
Contra portões adormecidos,
Perdidos gritos, sim, gemidos
Dos meros ecos friorentos.

E em congruência com a esfinge
Que de cansaço e de demora,
Sombra de abraço agora, tinge
A cor de dor fora da Hora,
Ergue olhos d’ódios, pára e chora
E o seu pranto meu espanto atinge.

Nexos sangrentos por opalas
Que um tédio-névoa em nós seduz
No eco vão das tuas falas
E tudo se reduz a luz.
Puseram teu nome na cruz
Pelo incenso que nele exalas.


O MEU TÉDIO não dorme,
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim...


QUE VINDA SOMBRA
meu coração
Resfria e ensombra?

Que vago mal
Torna minha alma
À sombra igual?

Não sei. Que há entre
Mim e a tristeza?
Não sei, mas sempre

Meu pensamento
Adoece, sempre
Só a mim atento.

Ó brisa vaga,
Passa por mim,
Vem e embriaga

De esp’rança ao menos
Meus doloridos
Dias serenos.


COM TUAS MÃOS piedosas
Faz gestos a sonhar,
Como quem colhe rosas
E acha divino olhar,
Com tuas mãos piedosas
Faze-me repousar...

Sim, os teus gestos lentos,
Teus gestos suaves são
Guias que os pensamentos
Me guiam p’ra a ilusão
Sim, os teus gestos lentos,
Acabando em perdão...

Com tão Madona arte
De exisitires no gesto
Juntas ao meu ser parte
Do que perde, que imerso
No teu gesto e na Madona arte
Me desencontro e cesso.


ACORDA. Vem
Até ao mar
As ondas têm
Um vago amar.

Há um calmo fim
Ao pensamento
No mar, assim
Cessado o vento.

A hora salga
De calma a dor...
Uma e outra alga
Doem-lhe à flor...

Vem tão comigo
Por tal caminho
Que eu contigo
Me creia sozinho...

Tanto pertenças
Ao meu pensar
Que as duas presenças –
Tu e do mar –

Não sejam mais
Que a calma triste
Sem nexo ou ais
Que em mim existe...

Ah, desejar!
Amar, sofrer!
Eu, tu e o mar...
Como dói ser!

Vem ajudar
Meu pensamento
A dispersar
P’lo mar sem vento.


A REVOLUÇÃO
Ruge a alegria da revolta
Nas nossas ruas concorridas...
De quando em quando o canhão solta
As ocas vozes desmedidas...

O crebro e acre estralejar
Da nítida fuzilaria
Ocupa as curvas do ar
Com a sua certeza fria...

Cai a noite, mas continua
Na incerta inclinação da hora
A voz dos tiros, cousa nua
No ouvido que conhece e ignora.

Uma febre ligeira toma
Os nervos deslocadamente...
Cada minuto ao longe assoma
Em solidão à alma ausente...

Que querem todos? Nada... Um palmo
De ilusão mais sobre nuvens belas...
E cobre tudo, alheio e calmo
O céu, tão plácido de estrelas.


PESCADOR DO MAR ALTO,
Deus te dê boa pesca!
Tu estás com tua tarefa
E eu a tudo falto...
Pescador
O que és tu para seres mais feliz do que eu?

Tens a alma guardada
No cofre da inconsciência...
E a lúcida inocência
Que vem de não ser nada...
Teu caminho na vida
É claro e a estrada que tu segues definida.

Vais só até a morte...
Corres os riscos teus
Menos fiado em Deus
Do que na tua sorte...
Esta é a verdade. O resto
Não importa... Eu porque é que te não detesto?

Meu Deus! Ter-te por alma!
Não ser inteiramente
Mais que eu realmente.
Que benévola calma
Para com o meu ser...
Assim... Olho-te e não sei o que hei-de dizer...

Teu barco alça a vela...
Segues pelo mar fora...
Deus te dê boa hora
E uma amiga estrela!
Sabe sempre ficar
Ignorante, audaz, livre, alegre e ligeiro como o mar

Olha. Eu tenho a alma alta
E o pensamento atento...
Sofro do pensamento
E a alma em falta
Por isto invejo o teu
Sono da vida activa sob o infinito céu.

Ah, como o mar te mete
O ar claro nos pulmões,
Às minhas ilusões,
Ó amigo, promete
Não seres mais do que és
E eu poderia, cantando-te, sentir-me-te uma vez.


ESCREVO, e sei que a minha obra é má.
Não farei aquilo que hoje quero.
Se penso nisto, desespero
E não sei para onde vá
O tédio que comigo está.
Ave, passa, passa...
Tudo me ultrapassa...


O BARCO ABANDONADO
O esforço é doloroso...
Deixemo-nos ir
Pelo mundo ocioso
Como que a sorrir...

Numa incerta mágoa,
Num sem querer mudo,
Sejamos como a água
Que reflecte tudo...

De que serve a vida?
Para quê a dor?
O bom sol convida
A um feliz torpor...

Vamos indo, indo,
Sem se definir
Ao nosso mar infindo
P’ra onde queremos ir...

Lá iremos ter...
Lá – parte nenhuma
Vida que viver...
Sussurro de espuma...

Mágoa incerta e vasta,
Céu azul e claro...
Como a dor contrasta
Com o ócio em que paro...

Que quero eu dizer
Com a minha vida?
Saiba eu não o saber...
Leve a alma dormida.

Estrela em sossego,
Feneça no afago
Duma brisa ao cego
Silêncio dum lago.

P’ra além do momento
Há todo o céu fundo,
E o movimento
Do abstracto mundo.

Que importa? Nas águas
Quando se reflecte
O verdor das fráguas
Nada se promete...

Tudo é como é
Sem que seja nada...
Quem me dera a fé
E o sol sobre a estrada!

O rio não tem ponte.
A alma não tem cor...
O sol, que desponte
Mas nunca o amor...

Grácil, fugidia
Demora da vida
Na tristeza fria
Que a faz comovida...

O sonho em botão,
A dor em acerto
Com a conclusão
Do mistério incerto.

Palavras perdidas...
A casa da alma
Quem me dera a calma
E as horas idas!


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mardi 3 mai 2011

1914

Continuando a seleção de poemas 'pouco conhecidos' de Fernando Pessoa. Voilà os que foram escritos ao longo do ano de 1914...




AMEM OUTROS a graça feminina
Gozem sonhar seus lábios entre seios
Outros e muitos... que meus cantos, dei-os
À tua formosura peregrina...

Meu doce Apolo jovem... Ó divina
Flor adônica de ópios e de enleios,
Ver-te é esquecer que neste mundo há anseios
Carnais, ó suave Vênus masculina.

Ninguém descobrirá o que tu és...
Meu coração, óleo que unja teus pés –
Quem sabe se tu mesmo o sentirás?...

Que importa... E a vergonha e o mal que importa?
Quem me dera viver à tua porta
Inda que vendo o amor que a outrem dás!...



Ó QUE HORROROSO medo de sentir-me!
Como me é erro e fome o existir!
E cada oco minuto vem pedir-me
O cansaço forçado de o sentir...

Sinto que nem sequer erguer os braços
Posso mesmo que a fim de ter um céu...
Meus próprios pensamentos soam lassos
E alguém em mim tem ódio de ser eu...

Hoje, não sei porquê, um tédio imenso,
Um tédio enorme como um céu desceu
Sobre o meu coração deixado e denso
De tudo quanto sente que sofreu.



NÃO SEI PORQUÊ, de repente
Esfriou-me o coração...
Vaga sensação doente
E remota a sensação
De só viver em vão...

Não é tédio, nem tristeza
Nem uma dor qualquer...
Mas com que subtileza
Me fez a alma doer
E o corpo estremecer!

Que terei eu perdido
Numa vida de além –
Um amor, um sentido,
Um irmão, uma mãe?...
Que cousa que era um bem?

Qualquer cousa lembrada
Por qualquer cousa em mim...
Ah, como a vida é errada
E de um mistério sem fim
Esta vida em que vim!...



TODAS AS MINHAS SENSAÇÕES são Deus.
Transbordo transcender-me.
Pisando a terra dura os passos meus
Sinto Deus pertencer-me
Piso com passos de alma os vastos céus...

Cesso de me conter hora após hora
Constantemente sou mais do que sou...
O passado e o futuro sempre agora
São para o Eterno onde o meu ser-Deus mora,
Para o Deus onde sempre estou...

Profuso de diariamente ser-me,
Prolixo de ser Deus-olvido em mim...
Estou sempre no fim
De definir-me por não-pertencer-me...
As minhas horas, rosas de perder-me
Perfumam de Infinito o meu jardim.

Saibo-me a horas imortais se vejo
A transparência-Deus da minha vida.
Meu conceito de mim é um desejo
Que Deus obtém da hora ser medida...
No ar azul vicejo
E imita Deus a flor de haste vivida.

A palmos corpos não me meço
A sentimentos, alma, não me cinjo...
Caibo somente onde me esqueço
E, céu longínquo, tinjo
De azul lugares... Finjo
E no horizonte Deus eu amanheço.

Abro todas as portas
E são todos os quartos, átrios, salas
Deus sem paredes, qual as crenças mortas
Dizem...

Não tenho fim ou dentro...
O modo como vejo tudo é Deus...
Minha alma e raio e centro
Busco meu ser nos céus
E estrela, ou espaço azul. ou sinistro além
Sou um eu desterrado que Deus tem.

Sondo-me e sou sem fundo
Busco-me e não me vejo um fim
De mim próprio me inundo
E encanto-me de mim...
Tanto me inclino e me circundo
Quanto mais me contenho a mim afim.

Movo-me e fico em Deus...
Falo e em silêncio sou...
Os pensamentos meus
São onde nunca estou...
Entre áleas de mistério vou
E a minha sombra é o azul dos céus.

Clepsidra a alma e erro
Pingo horas imortais...
Eu sou o meu desterro.
Da praia do exílio ou do ermo cais
Fito o mar, consciente do meu monte,
Sou o horizonte que o meu ser retém
E Deus é o que há além
Deste abstracto horizonte.



ÀS VEZES nas praias atiro
Pedras ao mar
E do meu gesto vão retiro
Um gosto a errar,
Um sabor a Império deixado
Por quem podia
Centrar o seu reinado
Mas deixou tudo só p’ra ter o agrado
De ver através de si o céu e o dia.



CANÇÃO
Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu jamais terei...
Mal oiço, e quasi choro,
Porque choro não sei.

Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.



UNS VERSOS QUAISQUER
Vive o momento com saudade dele
Já ao vivê-lo...
Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos...

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que a nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja...

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa ante-boda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,
E a morte não virá nem tarde ou cedo...

Porque o que importa é que já nada importe...
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,
Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos... Tudo é o mesmo... Eis o momento...
Sejamo-lo... Pra quê o pensamento?...



NÃO SEI o que é que me falta
Que não vivo como quero...
Sempre qualquer coisa espero
E isso só me sobressalta...

O quê? Saber que não tenho
Essa coisa, ou que ela venha?
Não sei...



COMO A NOITE é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr’ao pé de mim...

Amei tanta cousa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.



BATE A LUZ no cimo
Da montanha, vê...
Sem querer, eu cismo
Mas não sei em quê...

Não sei que perdi
Ou que não achei...
Vida que vivi,
Que mal eu amei!...

Hoje quero tanto
Que o não posso ter.
De manhã há o pranto
E ao anoitecer.

Tomara eu ter jeito
Para ser feliz...
Como o mundo é estreito,
E o pouco que eu quis!

Vai morrendo a luz
No alto da montanha...
Como um rio a flux
A minha alma banha,

Mas não me acarinha,
Não me acalma nada...
Pobre criancinha
Perdida na estrada!...



SABER? Que sei eu?
Pensar é descrer.
- Leve e azul é o céu –
Tudo é tão difícil
De compreender!...

A ciência, uma fada
Num conto de louco...
- A luz é lavada –
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
- Ó céu real e grande! –
Ah, saber o modo
De pensar o mundo!



VAI REDONDA e alta
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...

Não sei o que quero,
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...

Ponho-me a sorrir
P’ra a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir

Uma voz que o chama
Mas não sabe donde
(Voz que em si se esconde)
E só a ela ama...

E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...

Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego

No meu pensamento,
Na minha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento

Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só p’ra a sua calma.



MEU PENSAMENTO é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no meu desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto-o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de um rio certo e abstracto...

E p’ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...



AMEAÇOU CHUVA. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.

Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz.

E a terra é verde, verde...
Porque então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que então minha alma dista?



SOBRE AS LANDES (Quais landes?,
As que eu sonho talvez)
O vento põe fúrias grandes
Na sua rapidez...

E uma tristeza desce
Sobre mim como se eu
Ante essa lande estivesse
E não fosse um sonho meu.



CHOVE?... Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te e não posso
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce...

Ah, na minha alma sempre chove...
Há sempre escuro dentro em mim.
Se escuto, alguém dentro em mim ouve
A chuva, como a voz de um fim.

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior?
Ó céu mais útil que o meu pranto?



PESCADOR QUE RECOLHES a esta hora
Com vela firme sob um céu sereno
À tua aldeia de pescas, sob o aceno
Aéreo das estrelas que a noite ora
No teu barco antiqüíssimo e pequeno...

Longe de mim não na Europa aonde
A paz do teu regresso de pescar
Chama por quanto no meu ser se esconde
De dor e mágoa, e em mim já se confunde
Com o desejo flor do meu penar..,

E com uma furiosa raiva rude
Amaldiçoo não ser tu e os teus...
Não ter teu longe de mim, e a saúde
Que deve haver na tua vã virtude
De ser só pescador sob amplos céus.

Viril, sagaz a teu ingênuo modo,
Mas sobretudo longe de onde estou,
Vai para ti o meu anseio todo...
Ser um momento ao menos esse lodo
Ser quem tu és só pra ser quem não sou...

Viver à larga de pulmões e vista!
Correr perigos como quem só vive!
Não ser poeta, pensador, artista!
Empenhado somente na conquista
Daquilo que me faz mais eu... Mais livre.

Ter na minha alma com que construir
Barco, vela, nocturna paz, e mar,
E, dentro em mim, feito tu só, partir...
Não sei o quê iria eu encontrar...
Que importa? Ah, não pensar e não sentir!



ERMO sob o ermo céu
Esse mesmo ermo céu
Fita-o deste ermo lago...
Há árvores à roda...
Há um inquieto e vago
Desassossego em toda
A paisagem à roda...

Eu não sei porque existo...
Vou à beira do lago
E fito o meu rosto vago
Na água onde o mal avisto...
Não sei quem é que existo...
Sorrio, um triste e vago
Sorrir só para o lago...

Dói-me a alma que trago...
(Tudo isto é o céu e o lago
Mas eles não são isto)



O MEU MODO de ser consciente
É um potentado do Oriente...
Seus trajes são de sedas caras.
No seu turbante há pedras raras.

À sua janela encostado
Ele vê o sol encarnado
Sobre montanhas de bordado
E aspira, cheio de ermo mal,
A um domínio ocidental.


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mardi 22 février 2011

Fernando Pessoa

Seleção dos melhores poemas escritos ao longo da vida pelo grande poeta português:

1902-1912

1913




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vendredi 11 février 2011

Livro de Sóror Saudade

Frieza
Os teus olhos são frios como as espadas,
E claros como os trágicos punhais,
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o ouro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indif’rença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah, quem me dera, Irmã, amar assim!...”


A noite desce
Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma...
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!


Ódio?
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...


Sombra
De olheiras roxas, roxas, quase pretas,
De olhos límpidos, doces, languescentes,
Lagos em calma, pálidos, dormentes
Onde se debruçassem violetas...

De mãos esguias, finas hastes quietas,
Que o vento não baloiça em noites quentes...
Nocturno de Chopin... risos dolentes...
Versos tristes em sonhos de Poetas...

Beijo doce de aromas perturbantes...
Rosal bendito que dá rosas... Dantes
Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!...

Ah, cinzas mortas! Ah, luz que se apaga!
Vou sendo, em ti, agora, a sombra vaga
D’alguém que dobra a curva duma estrada...

samedi 5 février 2011

Livro das mágoas

Pequena seleção dos melhores sonetos do livro de estréia (Livro das Mágoas, 1919) da poetisa portuguesa, Florbela Espanca.


Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo todo!E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!


Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Torre de névoa
Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu...”

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!...


A maior tortura
Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura ainda é maior:
Não ser poeta assim como tu és,
Para gritar num verso a minha Dor!...


A um livro
No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
É uma sombra triste que ando a ler
No livro cheio de mágoa que me deste!

Estranho livro aquele que escreveste
Poeta da saudade e do sofrer
Estranho livro em que puseste
Tudo o que eu sinto sem poder dizer!

Parece que folheio toda a minh’alma!
O livro que me deste, é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizer! Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!


Alma perdida
Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... E eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Em busca do amor
O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás de encontrar”.

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos pra trás, desanimados...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...”


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