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mercredi 20 juin 2012

Presentimiento

"Agosto de 1920
(Vega de Zujaira)

El presentimiento
es la sonda del alma
en el misterio.
Nariz del corazón,
que explora en la tiniebla
del tiempo.

Ayer es lo marchito.
El sentimiento
y el campo funeral
del recuerdo.

Anteayer
es lo muerto.
Madriguera de ideas moribundas
de pegasos sin freno.
Malezas de memorias
y desiertos
perdidos en la niebla
de los sueños.

Nada turba los siglos
pasados.
No podemos
arrancar un suspiro
de lo viejo.
El pasado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.

Sus músculos de siglos
y su cerebro
de marchitas ideas
en feto
no darán el licor que necesita
el corazón sediento.

Pero el niño futuro
nos dirá algún secreto
cuando juegue en su cama
de luceros.
Y es fácil engañarle;
por eso,
démosle con dulzura
nuestro seno.
Que el topo silencioso
del presentimiento
nos traerá sus sonajas
cuando se esté durmiendo." (p. 67)


GARCIA LORCA, Federico. Obra poética completa; trad. de William Agel de Mello, 5. ed. - Brasília: Editora Universidade de Brasília, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.





Presentimiento (DUQUINO, Leonardo) 

dimanche 3 juin 2012

ΕΙΣ ΔΙΌΝΥΣΟΝ: Para Dioniso


ΕΙΣ ΔΙΌΝΥΣΟΝ


Eis mais uma tradução de outra ode anacreôntica. Como se pode perceber, Anacreonte apresentava uma característica predileção pela temática (e consumo!) do vinho. Uma tradução mais próxima dos termos (e da ordem) usados no original grego seria a seguinte:




Τοῦ Διὸς ὁ παῖς, ὁ Βάκχος
O filho de Zeus, Baco,
Ὁ λυσιφρων, ὁ λυαῖος,
O libertador da mente, o Laio,
Ὅταν εἰς φρένας τάς ἐμάς
Assim que em meu peito
Εἰσέλθῃ, μεθυδότης,
Entra, embriagando,
Διδάσκει με χορεύειν.
Ensina-me a dançar.
Ἒχω δὲ καί τι τερπνὸν
E eu, o amante da embriaguez, tenho
Ὁ τῆς μέθης ἐραστής.
Desejo de satisfação.
Μετά κρότων, μετ’ ᾠδῆς
Com batidas e canções
Τέρπει με κ’ Ἀφροδίτα,
Delicia-me como Afrodite
Καὶ πάλιν θέλω χορεύειν.
E de novo quero dançar.

(Ἐκ τῶν Ἀνακρέοντος ὠδῶν)
(de uma ode anacreôntica)

Entretanto, se levarmos em consideração o conceito de transliteração (Haroldo de Campos) e fizermos uso da licença poética para recriarmos os mais diversos efeitos sonoros (aliterações, rimas, assonâncias), seguindo uma métrica tão fluida quanto a do original grego (o verso hexassílabo):


Baco,o filho de Zeus,
Deus de espírito livre,
Penetrando o meu peito
Entorpece festivo
Numa dança envolvente.
E eu, amante do vinho,
Desejo ter deleite.
Com canções e batidas,
Concede-me delícias
Qual se fosse Afrodite
E outras danças desejo...




English translation


Zeus's boy, the Bakkhos, the free-minded Luaios,
when He enters My craving heart making it drunk,
He tells Me to dance. I therefore cry out something for joy. 
With stamping rhythm, with song The Lover of wine
makes Me happy, as Aphrodite does. Again I want to dance.


Extraído de: WEVELINGEN, M. The Hellenic World: Library. . Acessado em: 03 jun. 2012.




Bouguereau, The youth of Bacchus, 1884.

*

vendredi 30 mars 2012

m'éde vida


minha vida mede-se em versos
23.000 versos verti
(verdes ou maduros)
nos 23 outanos
de amores insanos
que em mim escrevivi
(somente o tempo mostrará os frutos
dos versos que vulguei ao vento,
ou antes, que ventei ao vulgo...
versos
re-
versos

).




*

vendredi 23 mars 2012

jackHAI-KAIrouacs (eng./ fr./ port.)


a beleza dos haikais de Jack Kerouac, com sua musicalidade aliterativa, chego mesmo ao fundo da alma. ainda que simples, princípio próprio do nipônico 5-7-5, há qualquer coisa que aspira à eternidade nestes versos...

a big fat flake
of snow
falling all alone



un dodu flocon
de neige
Tombe tout seul



um floco pomposo
de neve
desceliza sozinho



mas mesmo tamanha beleza - fat-flake-falls-all-alone - não vale a dimensão nostálgica (ainda que mais simples) deste outro que se segue...


The days go -
they can't stay -
I don't realize



Les jours passent -
sans pouvoir rester -
à mon insu



Os dias passam -
& não esperam -
Sequer me dou conta





a espera dos dias que passam, sem que possam ficar... espera-se sempre, mas sem saber o que esperar:



o grande nome da Beat Generation, mundialmente conhecido pelo "On the road", mostra em sua poesia "orientalista" (veja-se a influência do Tao-te king e dos Analectos de Confúcio) um amplo domínio da técnica... ainda que em plenas explosões do espírito


The low yellow
moon above the
Quiet lamplit house



Jaune et basse
la lune au-dessus de la
Maison calme éclairée d'une lampe



Reles e amarela
a lua além da
Calma casa alampeada





para os que se interessaram pelo trabalho poético do escritor americano (e que têm alguma anglofluência), aconselho o seguinte link, em que o próprio Kerouac faz a leitura de seus hai-kais:



e para os que quiserem ir ainda mais longe, resta um último conselho - da pena do mesmo Dharma Bum #

the sound of silence
is all the instruction
you'll get



le son du silence
est toute l'instruction
que tu recevras



o som do silêncio
é toda a instrução
que 'cê terá



*

todos os hai-kais em inglês e francês foram retirados do livro "JACK KEROUAC: Itinéraire dans l'errance", de Bertrand Agostini et Christiane Pajotin. as traduções para o português ficaram por conta deste que vos fala...


*

jeudi 22 mars 2012

Amare tirante



Da terra em que saí
eu soube o canto

Lá cantava e aqui não canto.


Da terra que parti

escuto ainda o vento
da saudade e me lamento.


Pois na terra pr'onde vim
sem estar pronto

a vírgula do texto fez-se em ponto.


E nesta terra pr'onde vim

nasceu em mim um outro canto
que canto agora no meu pranto.


É que da terra em que nasci,
que (me) deu sustento

memórias que não tive agora invento.


Pois só na terra em que não sou,
ainda agora sigo sendo,
sem ser visto e sempre vendo
nos olhos do que penso o mesmo sol.



*

samedi 11 février 2012

Escrito leito





"Hear the voice of the Bard!
Who Present, Past & Future sees;
Whose ears have heard
The Holy Word
That walk'd among the ancient trees"
- William Blake,
from SONGS OF EXPERIENCE

À esquerda, o vivido -
ao centro, o que vivo -
à direita, o porvir.

Indecisão e rompimento,
sob a tirania da vigésima,
conduziram-me, indeciso,
a um caminho vil de inércia.

Ainda agora eu sigo cego,
mas tenho a rédea das ideias
e talvez encontre o que carrego
de divino em minhas veias.

Para amanhã, desesperada
tentativa de escapar...,
se a falsidade com que agem
não for capaz de me arruinar.

Guma de l'Avis


***

samedi 28 janvier 2012

cantradição


eu canto porque sou triste
e se não fosse não cantava.
mas cantar me faz alegre
e, cantando, alegre e triste
já não sei o que há em mim -
pois somente fico alegre
quando, triste, acaso canto;
se acaso, entanto, estou alegre,
em silêncio fico triste
e não canto o que há em mim.


.

vendredi 27 janvier 2012

estúpida sextilha (& outros textos)


eu sou chama;
ela, pólvora.
ela chama,
me provoca -
eu esquento,
a gente estoura.

*

Eu disse-lhe que não. Eu disse-lhe que não.
Eu disse-lhe que não. Eu disse-lhe que... &
pedi-lhe tal vez que me dissesse
talvez. Ela disse-me talvez & eu
disse-lhe que sim. Eu disse-lhe que sim &
pedi-lhe que me dissesse sim. Disse que..

*

Preciso cultivar a mente. Não tanto quanto o corpo. Antiga mentira: "Mens sana in corpore sano". In corpore sano mens insana, deveria-se dizer. A chuva dos últimos dias - umidade que invade pelas gretas da mente - gerou cogumelos imensos no jardim das ideias. Asquerosos, de cor doentia, fortes de eternidade - ideias. Ídolos da deusa. Gero melodias inéditas de Bártók. A pulsação nervosa, o estridente gemer violino - ao fundo outras cordas. Vejo, sim, o Enforcado de cabeça para baixo. A corda que prende seu pé-scoço - grossa corda, gozo imenso. Sim, Eu sou o Enforcado. Encaro seus olhos - a palidez da cara - na cara do espelho. O vermelho que escorre não é sangue, mas sol que se põe para além da esperança (busco para expressar o que conto, não uma linguagem florida - metáforas em vasos na sala de visitas -, mas a linguagem exata que relata o real [creia-me se for capaz {desta capacidade que reside menos na fé do que na consciência daquele que se teme} e escute o que digo com a confiança de um amigo] perfeitamente límpido) - e escuto os meus passos que ecoam pelo vale. Atravesso sob a sombra das árvores, encoberto dos outros e de mim. Preciso estirpar os cogumelos da mente. Preciso cultivar as ideias como a um jardim. E da saúde do corpo da mente fazer a saúde da mente do corpo. Preciso cultivar-me ao nada em meio ao tudo.

Adeus, parto em busca de outros e novos horizontes!



*




vendredi 9 décembre 2011

acerte

um coração preenchido
é como uma taça cheia
não adianta servi-lo
com o que quer que seja
antes que tenha sido
sorvida a outra certeza.


.

jeudi 8 décembre 2011

Labor concreto


(clique sobre a imagem para ampliá-la)





& se não perceberam que poesia é linguagem & se não aprenderam com Poe & Mallarmé & Valéry sobre Mallarmé que poesia é linguagem & se não perceberam com Pound sobre Camões que poesia não é bem literatura & com Maiakóvski que a poesia só admite uma forma concisão precisão das fórmulas matemáticas & se não perceberam com Sousândrade & Oswald (João Miramar & Poesias Reunidas finalmente de novo na praça – que vocês estão esperando?) & com os poetas concretos que poesia é linguagem (& não língua) & que o que se costuma chamar de poesia chegou ao fim & se sequer perceberam que a palavra escrita é apenas uma codificação convencional da palavra falada & se ainda se preocupam com a correção ortográfica & não se aperceberam das novas realidades gráficas tipográficas magnetofônicas audiovisuais & se não perceberam isso muito menos vão perceber que a nova poesia nasceu sob os seus narizes por um descuido do sistema & esta revolução permanente é protótipo & não tipo & alimenta a invenção contínua da linguagem & chegou ao fim o que se costuma chamar de poesia & chegou ao começo a poesia concreta que eles tendem a não chamar de poesia & é explicável & ainda bem & Nathalie Sarraute chegou aqui & disse uma coisa exepcional & disse que uma coisa só pode ser considerada belo dentro de padrões já existentes & o belo só existe dentro de padrões & já estas coisas vão por nossa conta & você não reconhecerá o belo no signo novo é óbvio & a busca do belo conduz ao esteticismo & a busca do eidos belo é coisa de idiotas & alienados & o belo se existe só existe útil & momentaneamente na sociedade de consumo em massa por uma lógica estatística de preferência & se vocês quiserem as coisas muito bem explicadinhas nos seus mínimos detalhes nós não vamos fornecer & nós não temos feito outra coisa há mais de dez anos agora chega & se vocês quiserem para começar leiam a Teoria da Poesia Concreta provavelmente na Biblioteca Municipal de S. Paulo & se vocês detestam a poesia concreta procurem o verbete semantics na ençaiclopídia britannica para saber de mil formas de corromper os moços vide Pirandello Os velhos e os moços & uma delas é a defesa do verso & os moços defenderão o verso até a morte & tudo serve para defender o verso a começar pela psicologia ah o mistério da criação & a psicologia experimental que é a única que conta já partiu para a linguagem & a poesia experimental que é a única que conta é a linguagem das linguagens ao nível sensível como a matemática o é ao nível da lógica & lançam mão de tudo para salvar o verso ritmo linear lógica aristotélico-discursiva inerente aos sistemas linguísticos não-isolantes (as coisas muito bem explicadinhas…) & lançam mão do folclore outra vez que chato & se necessário lançarão mão da palavra nacionalismo & o que estamos vendo de novo em processo é a provincianização da cultura & não é à toa que certos trechos do Bicho lembram o Juca Mulato & que na capa da Revista Civilização Brasileira aparece aquele pescador típico dos velhos bons tempos & a rede de nylon não apodrece não precisa secar pesa sete vezes menos & os grandes países pesqueiros com barcos-fábrica e sonar para localizar cardumes são os primeiros interessados em financiar o nosso folclore… & mais a praga do neo-colonial nos móveis & imóveis & a praga de praxis concreto aguado & os críticos sociológicos são os novos gramáticos & João Gilberto foi mandado às favas & hoje nos deliciamos com A Banda & Disparada é claro que o consumo busca o seu leito natural na média comunicativa & Oswald mostrou que é possível radicalizar-se a média com Sócrates & Tarzan & que são revoluções sendo radicalizações da média? & tudo serve para salvar o verso & é preciso pensar em termos de VERSUS & Erik Satie realizou ao nível semântico-pragmático o que Webern realizou no sintático & da forma nasce a idéia disse Flaubert & a Teoria da Informação & Marshall McLuhan estão comprovando & é preciso distinguir entre conteúdo e significado para não parafrasear conteúdos já catalogados & sim criar SIGNIficados novos função de poeta & certa vez um bi-acadêmico poeta de “vanguarda” nos disse: o arco não pode permanecer tenso o tempo todo um dia tem de afrouxar & um dia vocês têm de afrouxar & nós: na geléia geral brasileira alguém tem de exercer as funções da medula e de osso &



Décio Pignatari

(Publicado originalmente em Invenção n. 5, ano 6, Dez. 1966-Jan 1967, São Paulo, Edições Invenção)

.

samedi 3 décembre 2011

Eu seio

Quando eu sei os
teus seios
entre meus dedos,
não permaneço
mais sóbrio,
mas bêbo
de tudo
o que soube -

e num arroubo
me faço mudo,
em meio à salgada
realidade molhada
de um choro doce
que aos olhos trouxe
o silêncio dito:


Quando eu sei os
...



"If the doors of perceptions were cleansed, everything would appear to man as it is, infinite..."
- William Blake

.

Versão do poema em francês:

.

mercredi 2 novembre 2011

Carta para a amiga (11-10-11)

[...]

O conforto me foi negado por tanto tempo que chego a duvidar de que um dia virei a encontrá-lo. Mas isto talvez faça parte da minha própria natureza: jamais me contentar... Sempre quero o que não tenho. É algo que às vezes me incomoda, mas que também me motiva. Já faz uns dias, durante um final de semana, por exemplo, aproveitando uma festa louquíssima em Ouro Preto, acordo no domingo de manhã e - quase como se não fosse eu quem o fizesse, mas um outro que não sou - escrevo:


"Não posso estar bem aqui,
não posso estar bem ali.
O bem-estar nunca achei
em meio aos bens que busquei.

De tudo quanto vivi
apenas o que perdi
(ou que não tive) prezei:
e tal é do mundo a lei.

Estar bem no que não tenho,
que só posso ter em sonho -
mas que se tenho desdenho.

Estar bem no bem que sonho:
para Onde vou, d'Onde venho...

Onde estou sempre tristonho."


Mas alguns momentos de tranquilidade ainda me são permitidos, não é? As aulas de francês são um alívio constante... Principalmente porque minhas turmas começam a alcançar níveis mais "avançados" - subjuntivos e condicionais da vida. O estudo do alemão vem se mostrando fertilíssimo! Um grande amigo que acaba de voltar da Alemanha e eu estamos "estudando" em transcriações do Rilke para o português. Enfim... A Arte é muito longa para tão curta vida e a gente faz o que pode.

Trabalho ainda com a produção de um livro mito-poético - de temática andaluza do século XIII - um pouco auto-biográfico, mas da vida que não pôde ser minha... E este projeto me consome o resto de tranquilidade. Empenho-me, mas já não sei se estou à altura do sonho...


Bem, no mais é isto, né?

A cada vez que a gente se corresponde é como se uma vida inteira tivesse passado - eu, pelo menos, tenho a impressão de ser outro-outro-outro -, sem que nós (esta palavra bacana que já traz a ideia de NÓ mesmo) tenhamos mudado um nada sequer! E é engraçado o que você disse sobre "ter saudade da imagem que faço de você", pois há uns meses escrevi algo parecido para uma garota que não me via há muito tempo e que dizia sentir muito minha falta:


"Não podes certamente ter de mim saudade -
visto que nunca me tiveste,
posto que em tempo algum tu me terás.

Tens certamente uma saudade do que pensas
dentro em ti que seja eu -
mas desta ideia não me participa a essência
e é menos do meu ser do que do teu
que sentes, qual certeza, esta saudade.

Pois a saudade é impossível de algum outro.
Lembramo-nos saudosos de nós mesmos,
mesmo se em pensamento um outro temos -
um outro outra estrada para os próprios ermos.

Não quero que confundas quando afirmo
o jamais me teres tido
com a vontade de fazê-lo, tendo-o dito.
Creio em ti,
mas é em mim que já não posso crer...
Ainda que o meu ser esteja em ti,
ainda que o meu ser tu clames ser...
Eu firme confirmo que tua saudade
não tem fim,
posto que não pôde ter começo."


Enfim... Não que eu ainda o pense hoje como ontem o pensei.

Mas isto é verso e versa-e-vice! ;)


Beijos saudosos,

Rafa!

.

dimanche 28 août 2011

Horizontes

Abro meus olhos como se os abrisse pela primeira vez. O frescor da tarde de luz escorreu-me pelo corpo e senti o que sinto sem que possa tê-lo sentido. É uma confusão dos cinco em um e o que sou é tudo aquilo que em mim mesmo estou. Antes, tudo aquilo que em mim mesmo estive e tudo quanto estarei. Narro fatos que se talvez passaram sem que quase se notasse - como o amor entre muitas dríades e um fauno -, mas que hão de deixar uma marca aberta no peito. A primeira vez em que eu a vi não foi talvez primeira, mas foi como se fosse. Seus olhos eram verdes e eram mato como os que nunca vi. Olhei-os como se os olhasse na primeira hora da manhã. Te quero. E quero estes olhos meus. Não sei se cheguei a pensar assim, mas se penso hoje em como o teria pensado, quando a vi daquela vez, tenho certeza de que o penso. E você o foi... Corpo molhado rebolando assim de lado/ Corpo esguio que rebolando espanta o frio/ Corpo, corpo, tanto corpo, gostoso, corpo, corpo.../ Gozo... E não me esqueço do brilho translúcido que tinha sua pele pálida e como suas veias azuis se acendiam prometendo redenções. Seu sangue era vermelho, entanto. Não me esqueço. Mas isto é outra história. Abri meus olhos e tomei o primeiro gole e ela parecia à vontade e não disse nada à princípio e depois falei algo ao que ela retrucou e eu calei pesado. Existem poucas coisas mais densas do que o silêncio quando instala-se no espaço de um olhar, entre dois olhares. Ela sorriu. Disto estou certo, pois o sinto agora como antes o senti e é, agora, tal como se o sentisse pela vez primeira. Seu sorriso era feriado e sinos tocariam nas igrejas se anjos pudessem badalá-los. No seu sorriso, que tinha ainda um rubor inocente de que nos veríamos completamente despidos horas mais tarde, soube um convite ao seu jardim de delícias. Adivinhasse tudo quanto me aguardava, teria lhe dado a mão como lhe dei. Pergunto, mas indecisamente. Não sei se quero responder as perguntas, mas antes formulá-las como afirmações titubeantes. Há mais dignidade em saber-se ignorante do que em aspirar qualquer grandeza. Eis a sublime riqueza da Bíblia - la clef du festin ancien! -, pois no crepúsculo dos pensamentos há de vir a felicidade do homem. E ele acaso a busca? Digo... : - Ele acaso a busca. Ele tateia as paredes da vida, mas não parece se dar conta de ser infeliz. São ignorantes, e os ignorantes são abençoados e a eles está reservada a felicidade dos céus na terra... Mas creio que divago. Soubesse eu o desfecho, então, que a minha vida, agora, tem e faria como o faço outrora. Ou antes, como naquela hora senti que havia de ser feito. Não pensava excessivamente, mas sentia - e não por meio dos pensamentos - tudo quanto vivia. Assim foi que num dia de setembro - ah...! o outono lá é todo tédio e sono, a primavera acá paixão sincera - peguei na sua mão na varanda em que fumamos nossos cigarros e o cigarro cai e a minha mãe pega na sua e sinto como se tremesse (ou eu? você? não sei) e naquele momento teria dito adeus se soubesse que o destino


mas não soube e seguro a sua mão e num mesmo fôlego sentimos no hálito a cerveja (que beb éramos) e um gosto pesado da fumaça que subia e o coração que palpita e que nos diz: "- É ela! É ela!" e como contrariá-lo? ... Naquele momento fechei os olhos como se o fizesse pela vez primeira...oblongópticflâmelasuavavevaevoumômboloiounós... oblongó... Fecho os olhos e oblongópticfâmeloinfamusônalemdômbololounós... O fato é que um momento só condensa em si a existência - há de se-lo-encontrar e sentir a futilidade de uma vida que escoa, sem desníveis, tranquilamente pelo lodaçal do tédio. Cujo passar é longo, cujo sentir é parco. Nós somos antes do tipo que, mãos dadas na varanda de nós dois, cantamos: "- Oblongó! Oblongó!" e não tememos beber venenos do cálice da ira em que viagens transpersonais são orquestradas no palco de nós todos... Ei você! Você que lê! Você escuta esta canção ao longe? muitas vozes, muitos sons e são noites que ardem fins de tarde - mantras que ensinam segredos da efemeridade eterna KAMA! KAMA! Come on me! KAMA KAMA calme, oh-oui! KAMA KAMA cama em mi! KARMA CHIAMA call m'ao fi! e as vozes alçam-se aos céus e elevam-se como ondas de um mar tempestuoso - suas almas que alcançam alcáceres em voos de além; assim cantam todos os que sente'o mesmo gozo! e quem sou eu em meio a tantos... quem? eu sou aquele que te segurou a mão enquanto te beijava os pés - eu sou não mais que vassalo vosso, mia senhor, e sofro desta coita que o memória do coito outroro me provoca. eu sou aquele que te ama, pois que te amou e que somente tendo-te amado entende o verdadeiro amor e tende a ainda amá-lo. Tendo ao mar e à partida e a tudo que possa me dizer adeus. Não busco o porto, mas antes o pôr-do

-sol que já mais não me será dado conhecer. Meu vinho é o ideal, o verso, meu pão. Às vezes disperso navego em meio a vagas de um oceano impiedoso. Mas a maior parte do tempo deixo à deriva o pensamento e chega a plagas nunca imaginadas. O que escrevo e anuncio na voz de mil profetas me soa inimportante, mas (seria a pena apenas minha?) sinto ingente urgência no elevar-se das marés. Certamente, o solo ainda não é pronto - frutos gritam, flores protestam. Reivindicam todos juntos aos elementos invisíveis que os governam seu direito de existir. Vingam-se dos reis na realidade e eu canto e cantarei (como antes o jamais cantei) seus atos de luta e suas vitórias, mas, sobretudo, suas derrotas -, pois somente na derrota vê-se a força de quem luta. Eu não divago! Entrementes, ou antes, entretanto, sinto o olhar que repreende daquele que não lê (e que jamais lerá!) qualquer linha destas linhas que então lemos... 'Descansem os remos!, estamos no mar, mais tarde oraremos - para um dia voltar! ... O seu amor busquei por ilhas d'além-mar... e penei e penei e onde o fui encontrar? Nas memórias do mar, nas memórias do mar...' Cedeu-me Deus as trevas para me cobrir; quis também que os breus me desse para mó de me punir - teria o Senhor Nosso vergonha do que fez? Ou furioso aguarda em fogo a sua tez? Basta! hasta quando?!

Basta! É chegado o momento, camaradas, em que muitas vozes hão de ser uma só voz - e que de todos os Eles havemos de fazer um Nós! E os nós serão atados, górdios - para além de Alexandres! Os engôdos? Hão de ser todos desfeitos... Todos! A utopia que um dia sonharam, hoje sonharemos! E somos todos juntos, pois os braços nos damos e as pernas e as línguas e entramoscantando em assembléias de anjos e demônios. Não para sermos julgados, mas julgando. Eu divago, você diz, e eu replico 'EU?', eu não sou este que aqui está, mas quem é, na verdade, sou você que lê - você que lê e que concorda com a calhorda que nós somos... Sim, a calhorda que NÓS somos! Acuse-o de raso, ao autor, e (talvez com embaraço) notar-se-á o acusador na pele do acusado. Eis chegado, mia senhor, o momento em que a terra abrirá suas entranhas para que os pobre-diabos revele' a força do seu fogo. Nós todos já fomos condenados. Cabem-nos os números e os verbos - façamo-nos bom uso! E mesmo que não, pois em meio a tudo quanto movesempre sobra espaço pra paixão, aproveito os instantes que me restam - deste horizonte, enquanto o sol jamais se ponha - para confessar-te como nunca o fiz: "TE AMO! TE AMO! TE AMO! ODEIO AMAR-TE E AMO!" em poucas palavras e as repito infinitas vezes como um mantra a ser cantado pelos meus alvoreceres... "TE AMO! TE AMO! TE AMO! ODEIO AMAR-TE E AMO!" ... "TE AMO! TE AMO! TE AMO! ODEIO AMAR-TE E AMO!". ... Antes que venham as revoluções, adianto-lhes, hão de vir revelações!



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